Um dia histórico contra o crime organizado
A quarta-feira, 28 de agosto, entrou para a história como um marco no combate ao crime organizado no Brasil. Em um esforço coordenado e de grande escala, a Polícia Federal (PF) e o Ministério Público de São Paulo (MPSP) deflagraram três grandes operações – a “Operação Carbono Oculto” do MPSP e as “Operações Quasar” e “Tank” da PF – que miram a atuação da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) em um esquema bilionário de fraudes no setor de combustíveis.
O ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, classificou as operações como as maiores já realizadas contra a facção, destacando a complexidade e a abrangência das investigações. Apesar de serem ações distintas, a união de esforços e a convergência de alvos em locais estratégicos, como a Avenida Faria Lima, um dos principais centros financeiros do país, demonstram a sofisticação da rede criminosa.
A complexa teia da “Carbono Oculto”
A “Operação Carbono Oculto”, liderada pelo MPSP, foi a maior delas em termos de alcance geográfico e número de alvos. Cerca de 1.400 agentes cumpriram mandados de busca e apreensão e prisão em oito estados: São Paulo, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Paraná, Rio de Janeiro e Santa Catarina. O esquema criminoso investigado, com a participação do PCC, causou prejuízos não apenas aos consumidores, mas a toda a cadeia econômica, e teria sonegado impressionantes R$ 7,6 bilhões em tributos.
Os números da investigação são assustadores. Aproximadamente 1.000 postos de combustíveis ligados ao grupo movimentaram cerca de R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024. Um dos elos mais importantes do esquema era uma fintech que funcionava como um “banco paralelo” para a organização, movimentando R$ 46 bilhões de forma não rastreável. A operação revelou a capacidade do PCC de se inserir na economia formal, usando o setor de combustíveis e o sistema financeiro para lavar dinheiro e lucrar com atividades ilícitas, como adulteração de combustíveis, crimes ambientais, fraude fiscal e estelionato.
A Faria Lima na mira da PF
Em paralelo à ação do MPSP, a Polícia Federal deflagrou a “Operação Quasar” com foco em desarticular a lavagem de dinheiro da facção no coração do mercado financeiro paulista. A investigação da PF, em parceria com a Receita Federal, descobriu um esquema complexo que utilizava fundos de investimento para ocultar patrimônio de origem ilícita.
A estrutura criminosa se baseava em múltiplas camadas societárias e financeiras, com fundos de investimento que participavam de outros fundos ou empresas. Essa teia complexa tinha como principal objetivo blindar o patrimônio e dificultar a identificação dos verdadeiros proprietários dos recursos. A estratégia incluía transações simuladas de compra e venda de ativos, como imóveis e títulos, entre empresas do mesmo grupo, sem qualquer propósito econômico real.
A ação da PF cumpriu 12 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Campinas e Ribeirão Preto, e a Justiça Federal autorizou o bloqueio de bens e valores de até R$ 1,2 bilhão, além do sequestro dos fundos de investimento utilizados para as movimentações fraudulentas.
A rede de lavagem de dinheiro da “Operação Tank”
A terceira operação do dia, também da Polícia Federal, foi batizada de “Operação Tank” e se concentrou no desmantelamento de uma das maiores redes de lavagem de dinheiro já identificadas no estado do Paraná. A ação cumpriu 14 mandados de prisão e 42 de busca e apreensão no Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro, com o bloqueio de mais de R$ 1 bilhão em bens e valores de 41 pessoas físicas e 255 empresas.
A PF estima que o grupo, em atividade desde 2019, tenha lavado pelo menos R$ 600 milhões e movimentado mais de R$ 23 bilhões. A rede criminosa era composta por centenas de empresas, incluindo postos de combustíveis, distribuidoras, holdings e até instituições de pagamento autorizadas pelo Banco Central. Para ocultar a origem do dinheiro, a organização usava depósitos fracionados, “laranjas”, transações cruzadas, fraudes contábeis e a simulação de aquisição de bens e serviços.
A operação também revelou a prática de fraudes na comercialização de combustíveis, como adulteração de gasolina e a chamada “bomba baixa”, em que o cliente paga por um volume maior do que o que realmente é abastecido. Pelo menos 46 postos de combustíveis em Curitiba foram identificados como parte do esquema.
Conclusão
As três operações deflagradas nesta quarta-feira representam um ataque frontal e de múltiplos lados ao poder financeiro do crime organizado no Brasil. A atuação do PCC no setor de combustíveis e sua infiltração no mercado financeiro mostram a capacidade da facção de ir além dos crimes tradicionais, como o tráfico de drogas, e se inserir de forma sofisticada na economia formal. A coordenação entre diferentes forças policiais e a Justiça Federal e Estadual é crucial para desmantelar esquemas tão complexos. A quebra desses fluxos financeiros não só prejudica a facção, mas também protege os consumidores e o mercado de uma rede de fraudes e ilegalidades. A luta contra o crime organizado agora passa, cada vez mais, pela asfixia de suas fontes de renda ilícitas.
Com informações do site: CNN Brasil