A Descoberta Amarga: O Salário Roubado e a Jornada no Brasil
O médico cubano Yaser Herrera chegou ao Brasil em 2017, com o sonho de ajudar comunidades carentes e a esperança de uma vida melhor. Ele foi um dos 500 profissionais enviados por Cuba para participar do programa Mais Médicos, uma iniciativa do governo brasileiro para suprir a carência de profissionais de saúde em áreas remotas. Herrera foi alocado em uma Unidade Básica de Saúde em São Gabriel, no Rio Grande do Sul, onde trabalhou por quase dois anos.
A esperança, no entanto, deu lugar à frustração quando ele descobriu que o acordo firmado entre o governo brasileiro e a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) não o beneficiava integralmente. Enquanto o Brasil repassava R$ 11,5 mil por profissional, ele recebia apenas R$ 2,9 mil. O restante do dinheiro ficava retido pelo governo cubano. “Descobri o valor real do nosso salário quando uma médica brasileira que trabalhava na mesma UBS que eu, também pelo Mais Médicos, me mostrou o contracheque dela”, conta Herrera. “Era a mesma função, mas ela ganhava quatro vezes mais”. A situação se repetia com as bolsas de instalação: enquanto o governo brasileiro destinava até R$ 25 mil para médicos que atuariam em áreas remotas, os cubanos ficavam com apenas R$ 4 mil. “Nós agradecíamos achando que era um benefício do governo de Cuba, mas depois entendemos que eles nos roubavam”, desabafa Herrera.
A Ruptura Política e o Retorno a Cuba: Uma Decisão Forçada
A parceria entre Brasil e Cuba foi abruptamente interrompida em 2018, no final do governo de Michel Temer, com a eleição de Jair Bolsonaro, que questionou a formação dos médicos cubanos e as condições do acordo. Em resposta, Havana determinou a retirada imediata de seus profissionais, ameaçando com sanções aqueles que se recusassem a voltar.
A decisão política de Bolsonaro e a resposta de Cuba foram um golpe para muitos médicos. “Nos deram 15 dias para sair. Vi colegas vendendo móveis às pressas e deixando pacientes sem atendimento. Não foi nossa escolha, foi uma decisão política”, lamenta Herrera. Temendo ser punido pelo governo de Cuba e ficar sem ver a família por até oito anos, ele decidiu voltar para a ilha, mas deixou para trás uma vida montada e a esperança de retornar. Poucas semanas depois, ele conseguiu voltar ao Brasil, mas sem emprego e sem o diploma revalidado. Passou quase dois anos trabalhando em um salão de cabeleireiro, fazendo estética e limpeza de pele. “Os pacientes que eu atendia na UBS iam até o salão e pediam consulta; era triste saber que eu tinha capacidade e conhecimento, que poderia ajudar, mas não estava legalmente apto”, conta.
Entre Liminares e Promessas: A Luta pela Estabilidade Profissional
A situação de Herrera só mudou quando ele e outros médicos cubanos conseguiram uma ação judicial coletiva que garantiu sua reintegração temporária ao Mais Médicos. Ele voltou a trabalhar, já durante o governo Bolsonaro, mas o vínculo foi novamente encerrado.
Com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, a esperança de uma recontratação direta foi renovada, mas a promessa não se concretizou. Herrera e seus colegas precisaram acionar a Justiça novamente, pagando cerca de R$ 12 mil cada em honorários de advogados, para conseguir o direito de voltar a atuar em unidades de saúde. “Nem Bolsonaro nem Lula nos ajudaram. O que temos é porque entramos na Justiça. Pagamos caro para continuar trabalhando enquanto tentamos passar na prova do Revalida, mesmo já tendo experiência no país”, afirma Herrera. A frustração é com todos os governos brasileiros, que não ofereceram uma solução definitiva.
O Revalida, exame que valida diplomas de medicina estrangeiros no Brasil, é um dos principais obstáculos para esses profissionais. Herrera e seus colegas consideram a prova de altíssimo nível de dificuldade, o que se reflete nos baixíssimos índices de aprovação. Na primeira etapa de 2025, por exemplo, de 15.915 candidatos, apenas 4.454 foram aprovados.
O Contexto Internacional e o Futuro Incerto
O drama dos médicos cubanos no Brasil ecoa em um cenário internacional de sanções e disputas diplomáticas. Os Estados Unidos acusam Cuba de explorar seus médicos ao reter grande parte de seus salários em missões internacionais, o que levou à revogação de vistos de autoridades brasileiras ligadas ao programa.
Enquanto o debate diplomático ganha força, médicos como Herrera seguem em um limbo profissional. Eles trabalham amparados por liminares, com um futuro incerto, e lutam para validar seus diplomas. “Eu só queria poder exercer a medicina de forma justa, sem depender de brechas jurídicas. A gente veio para ajudar, e continua precisando provar que merece ficar”, diz Herrera, resumindo a jornada de incerteza e perseverança de muitos profissionais que vieram para o Brasil em busca de uma oportunidade e encontraram um labirinto burocrático e político.
Conclusão: Uma Questão de Direitos e Dignidade Humana
A história de Yaser Herrera e de outros médicos cubanos é um retrato das falhas e das complexidades de um programa de saúde que, apesar de bem-sucedido em levar atendimento a áreas remotas, desconsiderou os direitos básicos dos profissionais. A luta desses médicos por salários justos, revalidação de diplomas e estabilidade profissional no Brasil é um lembrete de que as questões políticas e ideológicas não podem se sobrepor à dignidade humana e ao direito ao trabalho. É fundamental que o governo e a sociedade brasileira reflitam sobre essa situação e busquem soluções definitivas que garantam a esses profissionais a segurança e o reconhecimento que merecem, para que possam continuar exercendo a medicina de forma plena e ajudando a população brasileira.
Com informações do site: G1