Os Últimos Minutos de Alegria
Um registro em vídeo, carregado de uma melancólica ironia, mostra a jovem Sther Barroso dos Santos em um baile funk na comunidade da Coreia, em Senador Camará, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. A cena, capturada poucas horas antes de sua morte, exibe Sther dançando com uma alegria contagiante, inconsciente da tragédia que a aguardava. Segundo relatos da família, o desfecho brutal aconteceu após Sther recusar-se a deixar o evento na companhia de um traficante.
A gravação foi compartilhada nas redes sociais pela irmã da vítima, Stefany, que expressou sua dor e indignação. “Olha a felicidade da minha irmã. Covarde desgraçado”, escreveu ela, em um misto de tristeza e revolta. A imagem contrasta vividamente com o estado em que o corpo de Sther foi entregue, “desfigurado” e deixado na porta da casa da mãe.
Dor e Impotência da Família
A tragédia não apenas tirou a vida de Sther, mas também devastou sua família. Em uma publicação emocionante, Stefany desabafou sobre a perda e a sensação de impotência: “Estou sem chão, sem estrutura. Quem nos conhece sabe o quanto somos unidas, leais e uma pela outra. Sensação de impotência por não ter tido tempo de salvar a minha irmã.”
A dor é agravada pela crueldade dos detalhes. A família, que vivia no Muquiço, teve seu passado e presente tragicamente entrelaçados com as redes do tráfico de drogas. O principal suspeito, Bruno da Silva Loureiro, conhecido como Coronel, é o chefe do tráfico no Muquiço, área sob o domínio do mesmo grupo criminoso, o Terceiro Comando Puro (TCP), que atua na comunidade da Coreia. A Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) agora investiga se o motivo do assassinato foi a recusa de Sther em ceder às investidas de Coronel.
Sonhos Interrompidos e um Futuro Roubado
A morte de Sther não é apenas um caso de feminicídio; é o apagamento de um futuro promissor. Em suas redes sociais, amigos e familiares publicaram anotações pessoais da jovem, revelando as metas e aspirações que ela tinha para o ano. “Terminar a escola, fazer três cursos, ter um cachorrinho, focar muito na academia, agradecer a Deus todos os dias” eram alguns de seus planos. Essas aspirações simples e cheias de vida agora ecoam como lembretes dolorosos de um futuro que lhe foi roubado.
Uma amiga próxima, em luto, resumiu a tragédia: “Ela tinha tantos sonhos… Queria estudar, trabalhar, mudar de vida. Isso foi arrancado dela de uma maneira cruel.” O enterro de Sther, marcado para a quarta-feira, será um momento de despedida não apenas de uma pessoa, mas de todas as suas promessas e potencial.
Um Problema Recorrente no Rio de Janeiro
O assassinato de Sther não é um evento isolado, mas sim um reflexo de uma crise mais ampla e alarmante. De acordo com o Instituto de Segurança Pública (ISP), o estado do Rio de Janeiro registrou 49 casos de feminicídio apenas no primeiro semestre deste ano. O crime, definido como o assassinato de mulheres por razões de gênero, persiste como uma chaga na sociedade, muitas vezes encoberto pela normalização da violência.
A história de Sther, capturada em um vídeo que transita de felicidade para horror, serve como um poderoso e trágico lembrete da urgência em combater a violência contra a mulher. A luta de sua família por justiça se une à voz de incontáveis outras que clamam por um basta, por um futuro onde sonhos não sejam interrompidos pela crueldade e pela misoginia.
Conclusão
A morte de Sther Barroso dos Santos, em Senador Camará, chocou o Rio de Janeiro e jogou luz sobre a gravidade da violência de gênero. O vídeo que mostra sua alegria momentos antes do crime serve como um contraste chocante e doloroso, transformando a vítima em uma figura real, cheia de vida e de sonhos. O desfecho trágico reforça a necessidade de um debate sério e de ações concretas para combater o feminicídio. A dor da família e a impotência de seus entes queridos ecoam um apelo por justiça e por um futuro mais seguro para as mulheres em todo o país. A memória de Sther e de seus sonhos roubados deve ser um catalisador para a mudança.
Com informações do site: G1