A voz da conscientização na televisão
Em entrevista ao programa Altas Horas, o youtuber Felca, cujo nome de batismo é Felipe Bressanim Pereira, quebrou o silêncio e abordou a polêmica que iniciou com seu vídeo-denúncia sobre a adultização infantil e a exploração sexual de crianças e adolescentes nas redes. A matéria jornalística, que focava na atuação de influenciadores como Hytalo Santos, ecoou para muito além da internet e chegou até o Congresso Nacional, com mais de 44 milhões de visualizações em pouquíssimo tempo.
A principal mensagem de Felca foi clara: “Criança não deve produzir conteúdo na internet”. Segundo ele, a exposição a um ambiente digital feito para adultos é muito perigosa. O youtuber destacou que a internet não é um lugar fácil, onde críticas, assédio e outros riscos são constantes, e que crianças não têm maturidade emocional para lidar com esse tipo de pressão.
A denúncia e a prisão preventiva de Hytalo Santos e seu marido, Israel Nata Vicente, em uma casa na Grande São Paulo, na sexta-feira (15), reforçaram a urgência do tema. O casal é investigado desde o ano passado pelo Ministério Público da Paraíba (MP-PB) e pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) por exploração e exposição de menores de idade em conteúdos de redes sociais, além de tráfico humano.
O papel da supervisão parental na era digital
O youtuber enfatizou que o papel dos pais é crucial para a proteção dos filhos no ambiente digital. Segundo ele, o acesso e o consumo de conteúdo online por crianças e adolescentes precisam ser rigorosamente supervisionados. “É muito fácil a criança sair de uma animação divertida para um conteúdo não apropriado”, alertou.
Felca defende que a moderação no consumo de redes sociais só é viável se os pais puderem ser presentes e supervisionar de perto o que os filhos consomem online. Se essa presença for difícil, por conta de trabalho ou outras ocupações, ele acredita que a melhor solução é o bloqueio total das redes. “Se você não consegue ser um pai presente, se você trabalha muito, às vezes tem muitas ocupações e tudo mais, na minha opinião, bloqueio [das redes]”, afirmou.
O alcance da sua denúncia, que chegou a mais de 44 milhões de visualizações, deixou Felca emocionado e reforçou sua convicção de que o assunto é muito mais importante do que sua própria figura. “Eu fico muito feliz porque não é sobre mim, não é sobre eu como pessoa. É sobre a causa mesmo”, declarou. O youtuber relatou ter recebido fotos de pessoas assistindo ao vídeo-denúncia em transporte público, um sinal claro de que a mensagem estava alcançando um público amplo e diverso.
Os perigos do algoritmo e os “empresários mirins”
O vídeo-denúncia de Felca não se limitou a um único caso. Ele desvendou os mecanismos por trás dos algoritmos das plataformas digitais e demonstrou como eles podem, indiretamente, facilitar a ocorrência de crimes contra crianças e adolescentes. O youtuber criticou a tendência dos chamados “empresários mirins”, perfis de crianças e adolescentes que usam um discurso “coach”, que prega a riqueza rápida e a desvalorização do estudo formal. Essa monetização e exposição, segundo Felca, tornam as crianças “produtos” para gerar engajamento.
O youtuber também destacou o caso de Hytalo Santos e Kamylinha como um dos mais graves de exploração infantil. Ele acusou o influenciador de tirar adolescentes da casa dos pais para morarem com ele, e de expor, de forma sexualizada, jovens de 14 e 15 anos. O caso de Kamylinha é particularmente preocupante, pois ela teria entrado no ciclo aos 12 anos e, segundo Felca, passou a ser tratada como um “produto” para gerar engajamento, chegando a fazer implante de silicone aos 17 anos e a aparecer em conteúdos com bebidas alcoólicas e roupas sugestivas.
Uma teia perigosa: como criminosos atuam na internet
No vídeo, Felca também explicou como criminosos se aproveitam dos algoritmos para encontrar conteúdo sexualizado de menores. Ele destacou que a idade mínima para criar um perfil na maioria das redes sociais é de 13 anos, mas sem garantias reais de proteção. Segundo ele, os algoritmos recomendam conteúdos de acordo com curtidas, compartilhamentos e tempo de visualização, o que pode facilitar que criminosos encontrem material sexualizado de menores.
Além disso, o youtuber alertou para os códigos que pedófilos usam para o termo “trade” (“troca”, em inglês) para compartilhar imagens de crianças e adolescentes. Ele fez um alerta aos pais para ficarem atentos a comentários com essa palavra, além de outros símbolos, pois indicam tentativa de troca de conteúdo ilegal.
A exposição de adolescentes a festas, álcool e comportamentos sexualizados com adultos que não são responsáveis por eles também foi criticada por Felca, que ressaltou que esse ambiente de risco é extremamente perigoso para o desenvolvimento de menores.
As consequências psicológicas da exposição precoce
Felca encerrou sua denúncia com um alerta sobre os impactos psicológicos da exposição e do abuso precoce. Segundo o youtuber, a exposição à sexualidade em idades precoces pode gerar traumas duradouros, incluindo transtornos de ansiedade, depressão, estresse pós-traumático, transtornos de personalidade e alimentares.
Esses riscos não são apenas teóricos. Os advogados de defesa de Hytalo Santos e seu marido disseram à TV Globo que agora aguardam a análise de um pedido de habeas corpus impetrado neste mesmo sábado na Justiça Paulista, pedindo o relaxamento da prisão da dupla. O desenrolar do caso jurídico pode trazer à luz mais detalhes sobre o que se passa por trás das câmeras, e reforçar a importância do alerta de Felca.
Com informações do site: G1