O universo digital, muitas vezes associado a glamour, fortuna e sucesso instantâneo, revelou seu lado mais sombrio com a prisão de uma das suas maiores expoentes no Tocantins. A influenciadora digital Karol Digital, cujo nome de batismo é Maria Karollyny Campos Ferreira, foi detida em Araguaína durante uma grande operação da Polícia Civil que investiga um esquema bilionário de exploração ilegal de jogos de azar. Com uma vida de ostentação compartilhada com mais de 1,5 milhão de seguidores, a influenciadora agora enfrenta acusações de lavagem de dinheiro e crimes contra a economia popular, levantando questionamentos sobre a legitimidade de sua ascensão meteórica.
A Operação FRAUS e a Dinâmica das Prisões
A Operação FRAUS, que mobilizou 40 policiais e cumpriu 23 mandados de busca e apreensão autorizados pela 1ª Vara Criminal de Araguaína, foi um duro golpe contra a rede criminosa. A influenciadora e seu namorado, Dhemerson Rezende Costa, foram detidos em um condomínio de alto padrão na cidade. A ação policial resultou na apreensão de uma impressionante coleção de bens de luxo, incluindo carros de alta performance, dinheiro e propriedades diversas, como uma fazenda com cavalos e bovinos. A defesa dos acusados, no entanto, nega veementemente as acusações. O advogado Maurício Araújo defendeu a inocência de seus clientes, afirmando que a principal fonte de renda da influenciadora é totalmente legal e proveniente de sua atividade como criadora de conteúdo.
Acusações Graves e o Mecanismo da Fraude
De acordo com a decisão judicial que autorizou as prisões, Karol Digital e seu parceiro são suspeitos de chefiar uma complexa rede de crimes. A investigação aponta para uma grande movimentação financeira que é totalmente incompatível com a renda declarada da influenciadora, além do uso de empresas de fachada para disfarçar a origem ilícita do dinheiro. O delegado Wanderson Queiroz, responsável pela operação, explicou que a estratégia comum desses influenciadores é simular ganhos em jogos, enquanto o dinheiro na verdade tem outra origem. “Nós sabemos que hoje é um grande problema as apostas online porque várias pessoas estão ficando endividadas, de uma maneira enorme. Muitos até tirando a própria vida por conta dessas dívidas”, alertou o delegado.
A investigação detalhada também revelou conversas que indicavam a ocorrência de corrupção e fraude, além de estratégias de “blindagem patrimonial”. A influenciadora teria transferido bens para empresas de fachada para evitar que fossem rastreados, garantindo uma aparência de legalidade aos ativos adquiridos de forma ilegal.
Um Passado Conturbado e um Presente de Luxo
A ascensão de Karol Digital nas redes sociais contrasta com um passado marcado por problemas com a Justiça. A influenciadora já havia sido presa em 2015, suspeita de roubos em Araguaína. Na época, ela chegou a confessar os crimes e se comprometeu a cumprir acordos com o Ministério Público, como escrever cartas de perdão, produzir sandálias para as vítimas e dar aulas de taekwondo para adolescentes infratores. No entanto, ela não cumpriu as obrigações, sendo presa novamente em 2016. Após cumprir parte da pena em regime semiaberto, teve a tornozeleira eletrônica retirada em 2018.
A partir daí, sua vida deu uma guinada dramática, culminando na ostentação de um patrimônio avaliado em milhões. Sete veículos foram apreendidos, com um valor total de cerca de R$ 5,5 milhões. Entre os carros de luxo estão um Porsche de quase R$ 1 milhão e uma McLaren Artura avaliada em mais de R$ 3 milhões. Além disso, sete imóveis, incluindo a “Mansão da Digital”, e uma fazenda com centenas de bovinos e cavalos de raça, avaliada em R$ 8 milhões, também foram confiscados.
Império Digital e o Rastro Financeiro da Ilegalidade
A investigação da Polícia Civil revelou que o casal movimentou mais de R$ 217 milhões entre janeiro de 2019 e outubro de 2024. A quebra de sigilo bancário mostrou que a influenciadora recebeu mais de R$ 37 milhões de plataformas de jogos de azar ilegais. O dinheiro era movimentado em 30 contas bancárias diferentes.
Para ocultar os bens, Karol Digital teria criado uma série de empresas, incluindo uma holding. Os negócios variam de uma boutique de roupas a um haras. O delegado Wanderson Queiroz acredita que esses empreendimentos, embora pareçam legítimos, serviam como “clareamento” para os valores obtidos de forma ilícita nos jogos.
Atualmente, Karol Digital está na Unidade Penal Feminina de Ananás, enquanto seu namorado se encontra na Casa de Prisão Provisória de Araguaína.
Conclusão: O Limite entre a Influência e o Crime
A prisão de Karol Digital lança luz sobre um problema crescente e complexo: o uso das redes sociais para a exploração de jogos de azar ilegais e a lavagem de dinheiro. A ostentação, que atrai seguidores e cria uma ilusão de sucesso, pode esconder uma rede de crimes que prejudica a economia popular e causa um grande impacto social, endividando milhares de pessoas. O caso reforça a necessidade de um debate mais aprofundado sobre a responsabilidade dos influenciadores e das plataformas digitais, bem como a urgência de uma legislação que proteja os consumidores e puna aqueles que se aproveitam da vulnerabilidade alheia em busca de uma fortuna fácil e, agora se revela, ilegal.
Com informações do site: G1