O Foco do Governo Americano no Programa Mais Médicos
A decisão de cancelar o visto de Mozart Júlio Tabosa Sales e Alberto Kleiman foi comunicada por Marco Rubio através de sua conta na rede social X. O secretário de Estado americano, sem citar os nomes inicialmente, afirmou que a revogação se estendia a vários funcionários do governo brasileiro e ex-integrantes da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), que supostamente seriam cúmplices de um “esquema de exportação de trabalho forçado” do regime cubano. A acusação é grave e retoma uma investigação que começou no primeiro mandato de Donald Trump, envolvendo a participação da OPAS no programa de saúde brasileiro.
O documento oficial do governo Trump sustenta que Sales e Kleiman utilizaram a OPAS como intermediária para implementar o programa sem seguir os requisitos constitucionais do Brasil. Além disso, o comunicado acusa os brasileiros de “driblar as sanções dos EUA a Cuba” e “conscientemente pagar ao regime cubano o que era devido aos trabalhadores médicos cubanos”. Essa nova investida diplomática reforça a posição de Washington de que o antigo arranjo com a ilha caribenha não era ético e servia para enriquecer o regime de Havana em detrimento dos próprios médicos.
A História do Programa Mais Médicos e a Crítica Americana
O programa Mais Médicos foi uma iniciativa do governo de Dilma Rousseff em 2013, criada para levar atendimento de saúde a áreas remotas e com carência de profissionais. A parceria com a OPAS permitiu a vinda de milhares de médicos, principalmente de Cuba, para atuar no Sistema Único de Saúde (SUS). O programa, no entanto, gerou críticas internas e externas. Nos EUA, a administração Trump sempre considerou a iniciativa um “golpe diplomático inconcebível” e uma forma de exploração dos profissionais cubanos.
Em 2020, o então secretário de Estado Mike Pompeo já havia exigido que a OPAS esclarecesse seu papel no envio dos médicos. A acusação de “facilitar o trabalho forçado” é um ponto de atrito persistente. No governo Bolsonaro, o programa foi renomeado para “Médicos pelo Brasil”, e a participação de Cuba foi encerrada em 2018 por iniciativa de Havana. O programa, relançado em 2023, hoje prioriza médicos brasileiros com registro no Conselho Regional de Medicina (CRM) e profissionais de outras nacionalidades habilitados, o que o torna fundamentalmente diferente da versão original que está no centro da polêmica.
Um Padrão de Revogação de Vistos de Autoridades Brasileiras
A revogação de vistos de Mozart Sales e Alberto Kleiman não é um caso isolado. A medida se soma a uma série de sanções diplomáticas impostas recentemente pelo governo Trump a autoridades brasileiras. Em julho, os Estados Unidos já haviam suspendido os vistos de sete ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), incluindo o presidente da Corte, Luís Roberto Barroso, e o relator de casos de grande repercussão, Alexandre de Moraes. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, também teve seu visto cancelado na ocasião.
O secretário de Estado Marco Rubio justificou a ação anterior como uma punição a “Moraes, seus aliados e seus familiares imediatos”, por supostas ações contra a liberdade de expressão e a democracia. A revogação dos vistos de ministros do STF gerou uma forte reação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que emitiu uma nota de “solidariedade e apoio” aos atingidos. Lula classificou a medida como “arbitrária e completamente sem fundamento” e denunciou a “interferência de um país no sistema de Justiça de outro” como algo inaceitável.
Conclusão: Relações Brasil-EUA em Ponto Crítico
A escalada de medidas punitivas por parte do governo Trump, que envolve tanto ministros do STF quanto autoridades do Ministério da Saúde, sinaliza um período de alta tensão nas relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos. As razões apresentadas, que vão desde a suposta exploração de médicos cubanos até acusações de desrespeito à liberdade e à democracia, mostram uma clara intenção de Washington em influenciar a política interna e externa brasileira. A resposta do governo Lula, que até agora tem se manifestado de forma solidária aos atingidos e denunciado a interferência, aponta para uma firme defesa da soberania nacional. A série de sanções diplomáticas levanta questionamentos sobre os rumos futuros dessa relação bilateral e as possíveis consequências para a política e a economia de ambos os países.
Com informações do site: G1
